Quando a classe operária e o trabalho, não trouxeram a felicidade tão esperada
Eu não lembro exatamente quando foi, mas foi naquele ano em que uma série de bistros surgiram com vontade de “fazer o chic” e as alcaparras invadiram todos os pratos com pretensão ao sofisticado-despojado. Foi também quando minha tia descobriu o lounge, as coletâneas do Café del Mar e o bit acelerado do electro.
Acho que foi quando o proletariado dócil assumiu o poder, claro que dentro do espaço que os líderes acharam conveniente, já que representavam uma mão de obra barata. Todos os lugares lotaram de estagiários, fazendo o trabalho de profissionais e recebendo como inexperientes.
Eu, na minha ingenuidade, achei que os anos noventa haviam trazido luxo e tolerância para todos, então me joguei atrás de sunset e música eletrônica e nem imaginava a cartada final do capitalismo de ficção, que transformaria tudo em produto e exigiria de mim as habilidades de empreendedor.
Nesse mesmo ano, uma amiga que trabalhava na revista Elle me disse que a poetisa e artista plástica Lenora de Barrros havia sido demitida do cargo de diretora de arte. Eu sei, ela não fazia muita coisa objetiva, afinal ela é uma mulher do pensamento, das idéias, não é uma operária.
As corporações se solidificaram e alí só permaneceram com direitos trabalhistas, os que souberam fazer o jogo, se submeter as regras e acumular funções; os demais foram condenados ao subemprego em nosso próprio país, os terceirizados, com formação superior.
Ainda me lembro quando o vestir de forma criativa, não era rotulado de fashion e moda não tinha necessariamente nome e sobrenome.
O universo, me empurrou para a condição pós-humana, pós-gay, cheia de incertezas, onde se submeter as novas experiências, que já se tornaram velhas, faz emergir algum sentido ao existir, mas que se dissipa, cada vez que o dinheiro rateia na hora de pingar na conta bancária.
Como dizem os visionários, vamos dar adeus ao homo faber e seu reino da necessidade e ver se realmente existe esse tal reino da liberdade criadora e intelectual que poderá gerar qualidade de vida para todos.

verdadeiramente vivemos de subemprego em nosso próprio país – frase genial
É isso aí (apesar de não viver de subemprego). E quem era sua amiga que trabalhava na Elle.
MM, que sorte a sua, pois hj em dia muitos jornalistas fazem subemprego.
Eu chamo de subemprego, aquele cara que faz o mesmo tipo de trabalho que outro, mas não tem os direitos legais, fundo de garantia, plano de saúde do hospital Einstein, férias… tudo pago pela corporação. Enfim, ele é tercerizado e ganha menos, em nosso próprio país. Isso para mim é subemprego.