“Uma cidade é um assentamento humano em que estranhos tem a chance de se encontrar” Richard Sennett
O artista britânico Peter Greenaway, que tenta romper com os limites físicos da narrativa literária, através do uso mais inventivo das tecnologias da imagem, afirmou que já em algumas cidades européias vem ocorrendo um fenômeno que é o fechamento das salas de cinema. Calma, não é a expansão da Igreja Universal comprando tudo no primeiro mundo!
Com a difusão dos home theathers sofisticadíssimos e os lançamentos quase que simultâneos dos filmes em DVD, poucas pessoas se dispõem a deixar suas casas para ir a uma sala de cinema, parece que só vale apena ir as ruas para uma experiência que você não possa realizar em seu próprio lar, sendo assim, a procura por espetáculos teatrais, óperas, grupos de dança e eventos que fujam ao convencional e envolvam o corpo, tem crescido cada vez mais.
O grande desafio para as cidades, que estão no século XXI concentrando a maior parte da população mundial, é construir espaços de convivência que estimulem a permanência e que possam melhorar a qualidade de vida das grandes metrópoles, principalmente com o esvaziamento do espaço público, seja pelas novas formas de viver, violência ou pela presença do “estrangeiro”.
O conceito de cidades encantadas no estilo Disney ou Las Vegas, com comportamento social artificialmente controlado, tem se espalhado por aí. Centros de compras ou condominios totalmente vigiados por câmeras, cercas elétricas e seguranças que isolam os intrusos, os diferentes, que não fazem parte daquela comunidade ou grupo social.
Não posso deixar de lembrar de Chueca, em Madri, que no final dos anos 80 ainda era um bairro marginal ocupado por prostitutas e junkies. Na Espanha junkie não é quem faz uso de um baseado, mas dependentes químicos de heroína. A comunidade gay abraçou o bairro com arte e diversão e hoje se tornou uma badalada e cara área de Madri, cujos endereços não param de crescer na famosa bíblia dos modernos: B-Guided (www.b-guided.com). Apesar de atualmante existir uma harmoniosa convivência entre as mais variadas tribos, não deixa de ser discutível os rumos consumistas e os padrões estéticos que essa zona acabou impondo e difundindo, mas isto é outro post.
Depois dos anos 80, tendo sido seduzido pelas artes da virtualidade, me afastei bastante do teatro, sendo que ele não faz parte da minha rotina, nem os musicais tão em moda. Guardo lembranças do final da adolescência, das peças do Asdrubal Trouxe o Trombone, do grupo catalão Fura dels Baus, coisas do Gerald Thomas, Gabriel Villela e obscuros grupos da região do Bixiga, como a Cia. Pompa & Circunstância, com Tide Moreira e Sua Banda de Najas.
Voltei ao teatro para assistir a Cia Os Satyros, com A Vida na Praça Roosevelt. A presença do grupo teatral numa área degradada da cidade de SP, foi fundamental para revitalização da praça. Ivan Cabral relatou a Folha de SP que quando chegaram, era um espaço inabitável, cheio de traficantes, prostitutas e travestis. Eles foram inserindo esse povo. Não interessava tirá-los dali, pelo contrário, queríam que participassem.
São Paulo é uma cidade feia, onde as pessoas chegam pra fazer dinheiro e desenvolvem pouco carinho pelo espaço público e pelos que não pertencem a mesma tribo. Num exercício quase que constante, Os Satyros, tentam melhorar essa nossa incapacidade em lidar com a pluralidade dos seres humanos e desta vez organizam uma série de peças teatrais, filmes e exposição de artes plásticas como forma de ocupar a cidade e promover o encontro com o Outro.
Virada Cultural da Diversidade Humana: 24 e 25 de janeiro, Espaço Satyrus 2, Praça Franklin Roosevelt, 134, tel. 3258-6345

isso que você nem comentou sobre as bizarrices modernistas do urbanisno do Niemeyer, que deve ser contra as pessoas terem um lugarzinho verde pra passear… já foi curtir o Memorial da América Latina?
Bem lembrado Ivi, mas isso não ocorre somente aqui, a praça La Defense em Paris é um outro exemplo… e por aí vai!
;0)
Assim como o Copan, outro marco de Niemeyer… E La Defense é tudo em termos de vendaval, né? hahahahahahaha