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AQUELE SOFÁ DE JACARD ADAMASCADO

Dezembro 4, 2007 · 2 Comentários

A condição pós-humana

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Cada lugar e cada época tem seu preço, comprei o livro Suave é A Noite, de Scott Fitzgerald, em um sebo no centro por R$7, custava R$15 na região de Pinheiros e R$35, um exemplar novo. Estou quase acabando a leitura e derepente me bateu uma melancolia tanto por perceber a passagem do tempo no livro, a saga de um casal, como por sentir as mudanças aqui dentro de casa. Fui estender umas roupas no varal e reparei que as lanternas orientais estavam completamente desativadas. Lanternas estas, que tanto iluminaram deliciosas noites a dois e grupos em animados papos sob o luar. Nunca mais acendemos as velas do jardim.

Esse ano passou muito rápido e boa parte dos meus amigos, assim como eu nos retraimos em nossos pequenos universos. Jogados alí, não sei se por vontade própria ou por circunstâncias evolutivas do planeta.

Rompendo esse cerco fui encontrar um grande amigo, com quem compartilhei muitas aventuras urbanas e ensolarados dias em Parati.
Acho que foram 2 anos de ausência física, rompida somente por telefonemas. Nos encontramos na feira do bairro da Liberdade, almoçamos por lá e depois passamos a tarde no bar da Companhia de Teatro Os Satyros, alí na Pça Roosevelt. Falamos da vida e ele de um romance especial que tirou-o de circulação, comparecendo ao social somente em momentos de sexo grupal.

Professor da prefeitura há 10 anos, me contou da difículdade em continuar lecionando, pois a cada nova geração que chega, os valores estão cada vez mais corrompidos. Não exite mais respeito e educação da parte dos alunos e inclusive no trato entre eles. O problema vem das famílias e ele não vê saída, querendo inclusive abandonar a área.

Garotos de 14 anos já fazem gang bang com as garotas no escurinho do posto de saúde, coisa que nós demoramos 40 anos para se preparar. As meninas, chegam a escola de shortinho cavado no melhor estilo garota de programa. Sendo impedidas de assistirem as aulas, a escola chama as mães para comentar sobre a vestimenta das filhas e aí entendem porque as crianças se vestem assim!
Diz ele, que mesmo seu sobrinho, criado em uma família estruturada e com boas condições financeiras, não tem mais paciência para a leitura. Com tanta tecnologia, o livro se tornou algo monótono, o suporte do pensamento tem que ser outro.

Contei minha experiência com o cinema, que recentemente havia assistido 3 filmes e notei uma mudança no funcionamento do meu cérebro.
Os filmes dos novos diretores, cuja fórmula apela para os elementos comuns vivenciados pelo mesmo grupo social ao redor do planeta, seja no “Oriente” ou “Ocidente”, tem exercido maior fascínio, afinal a globalização definiu um comportamento e estética com as quais podemos todos nos identificar.

Estou me referindo a Bubble (Eytan Fox) e Marock (Laïla Marrakchi), dois filmes que retraram o coditiano de jovens tanto em Israel como no Marrocos e mostram os mesmos conflitos afetivos, os mesmos ídolos pop, as mesmas roupas e costumes. Tão pouco fogem a fórmula da tragédia shakespeareana, o amor impedido por famílias (ou culturas rivais) e a tradicional morte do ser amado. Como os novos seriados da tv, cheios de clichês, velozes, alegres, me causam uma agradável sensação de conforto, apesar de não apresentarem grandes reflexões ou narrativas não lineares.

Meu cérebro já encontra dificuldade em lidar com o rítimo lento de Alain Resnais em Medos Privados em Lugares Públicos, uma maravilhosa e moderna “comédia melancólica”. Apesar dos 3 filmes mostrarem que as relações estão fadadas ao desencontro (dentro daquela ótica antiga, baseada no princípio da eternidade), a ausência de referências visuais com as quais eu possa me identificar naquele inverno francês e a pouca velocidade dos fatos, começam a me afastar da linguagem visual de Resnais.

Na infância eu invejava muito um primo que morava no litoral e sempre passavamos as férias por lá. Ele possuia um sofá de jacard adamascado que era só dele. Passava horas alí construindo suas tramas. Poucos podiam sentar e brincar com seus carrinhos, bonecos, bichos e um montão de seres que habitavam aquele sofá. Ele as vezes me deixava entrar e eu ficava muito feliz por participar de seu universo, outras vezes não podia nem chegar perto. Na época não entendia porque não tinha um mundo como o dele.
Parece que agora esse mundo está mais do que edificado.

Categorias: CINEMA · COMPORTAMENTO
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2 respostas Até agora ↓

  • Ricko // Dezembro 5, 2007 às 2:55 am | Responder

    E vc deixa qualquer um sentar no seu “sofá” ??? E me explique uma coisa , pois não entendo como pode ser capaz “um romance especial que tirou-o de circulação, comparecendo ao social somente em momentos de sexo grupal “

  • nucool // Dezembro 6, 2007 às 9:36 am | Responder

    Bem, pelo que ele me contou parece que são almas gêmeas! Mas assim como eu, eles não acreditam em fidelidade física, somente espiritual!
    ;0)

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