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IBIZA, A ÚLTIMA UTOPIA

Outubro 21, 2007 · 3 Comentários

Escrevi este texto para a revista virtual NUCOOL KULTUR CIRKUITO em junho de 2005. Com a recente passagem da turma do Pânico na TV pelo arquipélago, achei conveniente trazer o material para o blog e alimentar os sistemas de busca.

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Alguns lugares do mundo tem a capacidade de seduzir a nata da criatividade planetária mesmo não se tratando de grandes capitais.
Ibiza é um desses exemplos, um mito artístico, comportamental e turístico dos nossos tempos. Mas sua história não vem de agora, nem vou falar dos fenícios
e romanos que por lá passaram. Já nos anos trinta atraia personagens da vanguarda européia fugindo das confusões políticas do momento.
Exotismo, beleza, história, segurança, sociedade tolerante, baixo custo de vida e cenário político adequado, são as condições ideais para se criar uma meca com capacidade de polarização de seres criativos.
O mesmo aconteceu em Tânger, Marrocos, nos anos 50, no Brasil; talvez Parati, Búzios, Porto Seguro, antes de se tornarem grandes centros da especulação imobiliária e o destino oficial da classe média.

Retornando a Ibiza, já se isolaram por lá, nada menos que Walter Benjamin, Raoul Hausmann, Tristan Tzara, Albert Camus.
No final dos anos 50 e metade dos 60, chegaram os jovens desertores provenientes da Califórnia, fugitivos das guerras da Coréia e Vietnã e cheios de idéias sobre amor, sexo e comunidades, provocando assim uma verdadeira revolução social na ilha.
Quando a ditadura de Franco chegou ao fim, Ibiza estava destinada a ser o centro do movimento hippie, o lugar perfeito para a liberdade de expressão.
De olho neste cenário, Ricardo Urgell abre uma filial do Clube Pacha, de Sitges, em terras ibicencas, era maio de 1973. Rapidamente o local se torna o centro da diversidade da então hedonista e elegante sociedade espanhola.
Estava lançada a pedra fundamental das festas temáticas que perduram até hoje, as famosas White Parties, Flower Power…
A galera premiada do teatro e cinema brasileiro também deu o ar de sua graça no arquipélago, estrelas como Norma Benguel, Antonio Bivar, Zé Vicente, falecido recentemente e autor da festejada peça, Hoje é dia de Rock, 1971.

Mas a fama da ilha não parou de crescer nos anos 80, atraindo além de freaks e excêntricos, o chamado jet set internacional. Assim novos clubes, bares e restaurantes charmosos começaram a surgir.
Vale lembrar que pioneiros do cenário musical mantiveram um namoro com a ilha, o Pink Floyd realizou o filme More por lá, assim como o New Order gravou o álbum Technique após noitadas no Amnesia.
No verão de 1988, alguns DJs (ingleses e alemães) em férias, promoveram umas festas e as pick ups nunca mais pararam de tocar. Esta talvez seja a Ibiza mais conhecida da geração brasileira que está com 25 anos. Aconteceu o que se chamou o segundo Verão do Amor.

Acredito que existia um cenário internacional favorável:
- Reagan e Gorbachev decidem eliminar uma categoria inteira de armas atômicas (1987).
- fim temporário dos conflitos Irã x Iraque x EUA (1988)
- fim da Guerra Fria: queda do Muro de Berlim (1989) e dissolução da União Soviética em estados independentes (1991)
- o surgimento e popularização de novas tecnologias como o PC, sampler, drum machine, MIDI…
- as pessoas estavam mais acostumadas a conviver com a AIDS, que foi devastadora no início dos anos 80.
- popularização de novas drogas – o ecstasy, destinado a criar sensações certas: energia sem travação, sensualismo sem alucinação, empatia.

Vislumbrava-se a possibilidade de construir um novo mundo, aparentemente mais feliz, mais tolerante, divertido, deixando para trás aquela coisa punk e gótica (no future) dos anos anteriores, já que não existia mais a ameaça de um possível confronto nuclear. Isto se torna evidente num estilo musical novo, positivo e up, surgido na época: HOUSE MUSIC. Dizem alguns estudiosos que se você quiser saber o que está acontecendo no mundo aproxime-se de um bom artista, mesmo que ele não saiba te dizer, intuitivamente sua obra lhe apontará o caminho.
Em Ibiza a house que vinha de Chicago, redesenhada em Londres se alimenta de novos sabores influenciada pelo espírito da região, que está a meio caminho da África e com pés em território mouro, tomando assim novas formas.

Estive pela primeira vez na ilha em meados dos anos 90 e até hoje é indescritível a lembrança do Moby tocando no Amnesia, clube, que aliás, estava sob a batuta do brasileiro Basílio de Oliveira.
Minha última passagem por lá, foi no verão de 2003, tinha viajado à Espanha com uma amiga, que acabou ficando em Barcelona e fui sozinho à Ibiza, pois não resisti a proximidade.

Apesar de ter sido invadida por uma galera afim de “curtir um lugar muito loco meu!!” (lembre-se que mediocridade é igual em qualquer parte do mundo) continua especial. Dizem que os aviões não podem passar pelo centro da ilha pois seus equipamentos de navegação se descontrolam, também dizem não existir animais peçonhentos como cobras, aranhas e escorpiões e de ser um centro mundial de bruxaria.
Desta vez nem me dei ao trabalho de ir aos megaclubes… afinal os tempos são outros e tudo me parece massificado e pasteurizado, mas a gente ainda se emociona vendo o pôr-do-sol no Café Del Mar.

Para quem não sabe, os grandes clubes estão no meio das estradas que ligam as principais cidades da ilha e não em Eivissa (capital). Aviso também que Ibiza não é um lugar somente gay, mas bastante hetero. Aliás as cenas mais safadas que vi nas praias de Salinas e Es Cavallet foram proporcionadas por heteros!

Neste verão curti muito o dia pela ilha, mas numa noite, acabei indo ao ANFORA, um clube gay em Dalt Vila, o bairro histórico da capital. Qual minha surpresa ao entrar naquele lugar e encontrar uma das boates mais charmosas que já pisei na vida. Pequeno, decoração com inspiração marroquina, velas e a pista de dança encravada numa gruta cujo teto de pedra criava uma atmosfera ancestral.
Cenário ideal para meu aniversário já que estava sozinho no paraíso! Essas dataspor mais que nos esforcemos em dizer que não são importantes, são sim e ficamos sensibilizados. Passar sozinho num lugar como Ibiza, em pleno verão seria uma experiência que eu teria que administrar.

Estava cansado daqueles papos superficiais com gringos, de pensar em outros idiomas, por sorte acabei conhecendo um brasileiro interessante que vivia há 20 anos em Londres e para quem era sagrado passar pelo menos 1 mês na ilha todo verão. Ele deveria ter uns 35 anos, bonito, de Porto Alegre e me disse que o sexo a essa altura da vida já era algo menor(!), que o grande tesão estava nas drogas (haxi/ecstasy), na produção de música eletrônica, em dançar e viajar. Achei curiosa sua presença e considerações e acabamos nos entendendo, tomamos cervejas e fumamos haxi alí mesmo, até o momento que o camarada enlouqueceu demais e eu fui dar uma volta!

Eu fazia sucesso entre os alemães e franceses, que não sabiam ao certo minha origem, que quando revelada lhes excitava muito mais, como se eu tivesse a resposta pra todas as suas fantasias sexuais.
Não entendo meu carisma, as vezes ele é forte o bastante para atrair a atenção de muitos e outras vezes passo despercebido diante do meu grande objeto do desejo…rs!
Mas após uma temporada de “primitive sex” em Madri, estava calmo, ninguem me atraia de verdade naquela boate, parecia gay demais, D&G demais, cK demais, todos desenhados demais… e me atirei na pista, em transe, extremamente feliz por me perceber tranquilo naquela data e naquele lugar mágico. No final dei uns beijos no meu amigo malucão e fui sozinho andando pelas vielas até meu hotel. As muralhas seculares que rodeiam a cidade adquirem a dimensão exata naquela hora da madrugada.

Ibiza apesar de todo esse fervor parece muitas vezes um local parado no tempo, onde todos se cumprimentam nas ruas, os hippies ainda se vestem de branco, andam de bicicleta, fazem ásanas de saudação ao sol observados por seus cachorros sonolentos.

Já em 2003, se buscava uma alternativa musical para uma década de eletronic music. Se falava em um retorno ao rock e mescla de estilos, que provavelmente estarão presente neste verão de 2005.
Recentemente o DJ alemão Sven Vath, uma das figuras lendárias de Ibiza, declarou em sua turnê pelo Brasil que o Rio de Janeiro tem total vocação para ser a nova Ibiza. Será que a atual cena mundial e regional permitem sonhar com tal utopia?

Categorias: COMPORTAMENTO · MÚSICA
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