Nucool's Weblog

NUCOOL, O AMANTE E A CIDADE

Outubro 14, 2007 · 4 Comentários

A construção de uma realidade ou a experiência da deriva

c2.jpg

Apesar de todo mundo usar como conceitos extremamente claros, existe 3 coisas que até hoje não entendi direito o significado. Não sei o que é arte, amor ou Deus.

Em SP, distante das chamadas zonas de lazer de “gente bonita” que incluem os Jardins, Vila Madalena e Itaim, ainda é possível encontrar, na área central, próximo a Pça Júlio Mesquita, os últimos bares com atmosferas diferenciadas e que estão desaparecendo com a homogeneização dos gostos e das cidades.

O mérito desses lugares é o bom uso de uma simples idéia arquitetônica e iluminação, que acabam tendo efeito sobre o comportamento, permitindo a interação entre as pessoas. São espaços que funcionam somente como um cenário, a diversão, é você quem faz, de acordo com a sua capacidade ou vontade de construir uma situação. Outro elemento em comum é a existência de jukebox, aquelas máquinas onde vc escolhe a música e se vivência uma discotecagem coletiva propiciando vários tipos de emoções, construindo assim, um ambiente.

A caracteristica principal desses lugares é a concentração de tipos humanos dificilmente catalogados, fora o fato de talvez, em sua grande maioria, pertencerem a classes sociais menos favorecidas.

Vou contar a história de um lugar que não existe mais como ambiente, apesar do espaço físico estar lá, mas sem o mesmo poder, afinal sua arquitetura foi modificada e adaptada as novas formas de lazer, tendo virado um karaokê.
O bar CAVERNA DO DRAGÃO, na rua Vitória, existe desde os anos 70, só fui conhecer nos anos 90, quando já não interessava mais frequentar as novas releituras do Madame Satã/Kravitz/Nation/Hells/Loca, que me atrairam pela força e originalidade do público. As novas versões do underground paulistano já estavam claramente mapeadas e seu frequentador não exercia fascínio sobre mim, talvez pela constatação de um clima psíquico bastante definido.

Buscava um lugar onde não soubesse exatamente com quem estaria falando e a que universo ele pertenceria e mesmo com códigos visuais distintos, conseguiriamos achar algum ponto de afinidade e criar uma situação curiosa, nem que fosse só por uma noite.

O grande charme desse local, além da jukebox com músicas de FM, era a existência de um imenso balcão, onde você mesmo estando sozinho, acabava estabelecendo relação com seu vizinho de lado. Fora ter me divertido por alí com muito pouco dinheiro, fiz amizade com o filho do dono que administrava a casa e um skatista que era barman no local e que passou a frequentar minha casa e meu círculo de amigos.
O lugar era uma festa na alta madrugada, quando concentrava todos os tipos da fauna e flora paulistana, mas tudo em estado bruto, nada parecido com algum editorial de moda modernoso. Esse lugar não existe mais, o dono foi assassinado e o filho passou o estabelecimento para outra pessoa.

A primeira vez que sai com meu atual amante, praticávamos a arte da flânerie pelo centro e acabei levando-o ao que restou desse tipo de ambiente. Num primeiro momento, percebi que ele não ficou muito a vontade, talvez esperasse de mim algo mais elegante. Claro que para penetrar nesse layer de realidade você precisa relaxar o cérebro para absorver a beleza do local. Após a segunda cerveja, ele já estava a vontade o que me deu muito prazer. Descobrimos então, bares de hotéis decadêntes, buracos que me lembraram aquele livro do Hermann Hesse, lido na adolescência, onde ele falava de um teatro mágico, cujo slogan era SÓ PARA RAROS.

Não nos encontramos sempre porque nossas afinidades são limitadas e seríamos esmagados pela força devastadora do cotidiano, que destruiria o encanto do nosso delicado e prazeiroso relacionamento. Além da pessoa boa que é, admiro no sujeito, o corpo forte cujos músculos tem uma história e não foram construídos rapidamente, em academias, por máquinas que forjam corpos contemporâneos estereotipados.

Recentemente passei a admirá-lo ainda mais, por ele ter grande habilidade em criar situações e me surpreender, apesar de ser de outro universo cultural tem se mostrado um excelente jogador.

*fotos produzidas com telefone celular

Categorias: TURISMO URBANO
Etiquetado: , ,

4 respostas Até agora ↓

Deixe um comentário